em Meio Ambiente

O verão se aproxima!

Sol, praia, cachoeira, horário de verão, férias (para alguns), muito calor e…

E… chuva, muita chuva!

Como esperado aqui no sudeste brasileiro, o verão vem sempre acompanhado da temporada de chuvas. Andam juntos, de mãos dadas. Assim, preparem as capas e comprem novos guarda-chuvas.

Com a chegada do calor, algumas chuvas já começam a aparecer. No dia 15 de outubro, um sábado, uma chuva bem forte atingiu a cidade de Nova Friburgo, deixando muitas pessoas preocupadas. Conversando com amigos que moram na serra fluminense, percebi que todos estão muito aflitos e preocupados com o que esperar dessa época de chuvas que se aproxima, visto o grande trauma que assolou toda a região no dia 12 de janeiro desse ano.

Mas afinal de contas, o que aconteceu de diferente naquela terrível madrugada, que causou tantos transtornos e perdas?

Não é uma pergunta com uma resposta simples, mas um estudo, desenvolvido na UFRJ, sobre o comportamento climático que antecedeu às fortes chuvas do dia 12, procurou investigar e indicar algumas possíveis causas.

A primeira percepção, ao se deparar com o histórico de chuvas medidos em vários pontos na cidade de Nova Friburgo, foi que o verão apresentou-se com um comportamento hidrológico bem acentuado, com um grande volume de chuva caindo em todos os meses, desde outubro.

Alturas de chuvas em milímetros nos dois últimos verões, em Nova Friburgo

Olhando esses gráficos, também podemos perceber que a distribuição espacial da chuva foi bem diferente. No verão 2009/2010 as chuvas concentraram-se bastante no Pico do Caledônia, o que é esperado. Já quando olhamos o comportamento desse último verão, 2010/2011, observamos que em todos os pontos da cidade em que houve medição de chuva, os volumes precipitados foram bem altos, principalmente em dezembro.

Agora, se compararmos apenas o mês de janeiro dos anos 2010 e 2011, veremos que esse ano o volume de água despejado sobre Nova Friburgo chegou a ser 4 vezes superior que em 2010.

Alturas de chuvas em Janeiro de 2010 e 2011

Esse extenso e intenso período chuvoso foi alimentado e mantido pela Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que direciona grande quantidade de umidade amazônica para o sudeste do Brasil.

Essa combinação acabou por formar um evento hidrológico atípico e de difícil ocorrência, que pareceu ser uma série de temporais de verão, resultantes da formação de nuvens conhecidas como Cumulus Nimbus, alimentadas por essa enorme fonte de umidade! Esse fenômeno se concentrou entre a noite do dia 11 e a madrugada do dia 12 de janeiro de 2011.

Distribuição das chuvas em vários pontos de Friburgo

Visto por satélites, percebeu-se uma grande massa de ar úmido concentrada entre os municípios de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, com nuvens que alcançaram mais de 13km de altura. Diversos cálculos foram feitos para tentar encontrar a freqüência que um evento dessa magnitude poderia ocorrer. Dependendo da metodologia empregada, diferentes valores foram encontrados, mas foi estimado em mais de 500 anos.

Imagem de satélite do RJ, às 3:00h, e imagem de temperaturas (quanto mais frio, mais alta a nuvem), destacando a região serrana

Com essas informações, pôde ser concluído que, devido ao longo período chuvoso, com maiores precipitações, o solo já se encontrava muito saturado, com muita água e pesado, facilitando eventos de deslizamento.

Assim, toda essa água que caia dos céus, atingia os morros e carregava parte do solo, vegetação, troncos e árvores inteiras, indo parar nos rios, formando verdadeiras barragens naturais. Essas barragens prendiam um grande volume de água até não resistirem mais e se romperem, gerando uma verdadeira onda que descia pelos rios arrastando tudo o que havia pelo caminho.

Leito do rio após onda de cheia e “reservatório” natural rompido

Algumas vezes escutamos pessoas dizendo que devemos “combater” as enchentes. Como poderíamos combater um evento desses? Na verdade, como temos dito aqui no Blog, devemos aprender a viver em harmonia com a Natureza, conhecendo e respeitando os seus ciclos, suas forças e seus limites.

Devemos acreditar no conhecimento, pois é baseado nele que poderemos construir cidades mais bem preparadas e resilientes.

Grandes abraços…

Créditos: O estudo que citamos foi conduzido pelo Professor Paulo Canedo, do Laboratório de Hidrologia e Estudos do Meio Ambiente da COPPE/UFRJ, com colaboração do Professor Marcelo Miguez, dos Engenheiros Matheus Martins e Osvaldo Rezende e do Meteorologista Lázaro Costa.

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Mostrando 21 comentários
  • Maria Candida
    Responder

    Parabéns a Aquafuxus. Me orgulho de vocês.

  • Antonio Carlos Rezende
    Responder

    As informações esclarecem o trágico acidente e nos tranquilizam quanto a novos problemas.
    Pena que nosso Município não possua políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de planejamentos Urbanos que contemplem soluções para essas e outras “calamidades” que nos assolam.
    As eleições vem aí!! esperamos respostas.

    • Osvaldo Moura Rezende
      Responder

      Fala Cacau Rezende! É realmente uma pena que quase nenhum município no Brasil adote um planejamento urbano sério, visando a construção e a manutenção de cidades mais sustentáveis! Que venham as eleições…

      Grande abraço…

  • Thiago Neves Leite
    Responder

    Parabéns a Aquafuxus! Muito bom!

  • israel
    Responder

    Fala garoto…Estou orgulhoso de vc

  • Renata Faria
    Responder

    É sempre bom receber informações de pessoas qualificadas, que sabem o que estão dizendo e, melhor ainda, sabem expressar de maneira clara e objetiva para que possamos entender o que aconteceu realmente e ainda acontece na Região Serrana.
    É visível que com a chegada das chuvas a população se amendronta. Acredito que as chuvas que estão caindo nesse período não tem “força” suficiente para alagar as ruas, mas pelo o que observo os bueiros são o grande problema. Visto por cima, estão entupindo com facilidade e em questão de minutos as ruas se transformam em pequenos rios. De que forma é feita a limpeza dos bueiros?

    • Osvaldo Moura Rezende
      Responder

      Oi Renata! Obrigado pelos elogios, isso nos motiva a continuar escrevendo sempre mais.

      Realmente ouvi muitos comentários sobre a questão dos bueiros, que apresentaram problemas durante essas últimas chuvas. Assim, mesmo com o rio em níveis d’água baixos, a cidade apresenta diversos alagamentos. Isso ocorre pela falha na microdrenagem, que é o sistema responsável por drenar as áreas urbanas (ruas, calçadas, praças…) e encaminhar a água para os rios. Como você disse, os bueiros encontram-se entupidos. Aí existem dois problemas: um que diz respeito às ações pós-evento do dia 12, que deveriam ter desobstruído os bueiros e as galerias, permitindo o funcionamento da microdrenagem; outro ponto importante está relacionado a maior capacidade da região em “gerar” mais resíduos sólidos, provenientes das encostas sem a cobertura vegetal, que acabarão novamente nos bueiros. Com isso, mesmo após a limpeza, basta uma chuva um pouco mais forte para carrear mais lama para o sistema e causar novos entupimentos. A preparação da cidade para as chuvas de verão não deve ser concentrada em uma “solução” mágica, mas em diversas ações coordenadas que envolvam tanto medidas de prevenção, como medidas mitigadoras.
      Ah, e quanto a sua pergunta, os bueiros são limpos mecanicamente mesmo! Abrindo e tirando a lama. Para limpar toda a extensão da galeria, pode-se lançar mão de um sistema chamado bucket machine, que nada mais é que um tipo de “balde” puxado por um cabo que coleta o material dentro dessas galerias.

      Valeu, grande beijo,

  • delia c. engel
    Responder

    gostei muito.
    parabéns

  • fernando martingil
    Responder

    O que preocupa é o desmatamento e consequentemente o assoriamento da amazônia.Sem a vegetação, a umidade da região não é retida e vem em direção ao sudeste,aumentando o volume das chuvas e também da temperatura.

    • Osvaldo Moura Rezende
      Responder

      Olá Fernando, realmente o desmatamento na região da floresta amazônica é muito ruim e alarmante. Devemos buscar entender melhor os mecanismos de movimento e transporte dessas massas de umidade para avaliarmos a sensibilidade do regime de chuvas aqui no sudeste frente a essas transformações na Amazônia! Sabe-se que é natural esse caminho de umidade, resta-nos saber como estamos afetando isso.

      Grande abraço,

  • Zé Knust
    Responder

    Post muito bacana e explicativo (como sempre)!
    Queria perguntar uma coisa: no próprio dia 12 já começaram a rolar aquelas histórias de que teria havido algum evento sísmico, que teria desestabilizado as encostas e aumentado o número e a gravidade dos deslizamentos.
    Óbvio que isso era boato, mas depois ouvi uma explicação que para um leigo como eu pareceu fazer sentido: teria ocorrido, na verdade, um nível anormal de relâmpagos, que atingindo cumes de morros os teria desestabilizado (causando deslizamentos mesmo em regiões de mata virgem).

    Isso faz sentido? E é plausível que tenha acontecido na região serrana no 12 de janeiro?

    Abraços e parabéns pelo blog!

    • Osvaldo Moura Rezende
      Responder

      Fala Zé!? Valeu pela força!
      Agora, entrando nas suas dúvidas:
      Primeiro, como você próprio já observou, a história do movimento sísmico é boato mesmo. Agora, quanto à questão dos relâmpagos, também ouvi muito essa versão, mas, pessoalmente, não acredito que tenha sido esse o motivo de tantos deslizamentos. O motivo principal foi o grande volume de água concentrado nos dias 11 e 12 de janeiro, precedidos por um longo período de chuvas, como explicamos no post. Assim, todo o solo já se encontrava saturado de umidade, com grande propensão ao deslizamento. Associado a este encharcamento do solo, devemos considerar também o tipo de cobertura vegetal existente na região serrana. Essa cobertura é toda de mata atlântica, que possui como uma característica uma pequena espessura de solo, por ser uma formação jovem. A água que infiltra no solo alcança rapidamente a interseção solo-rocha e passa a escoar sobre a rocha, criando caminhos preferenciais e carreando parte do solo de contato. Isso faz com que a camada de solo se “desprenda” da rocha, favorecendo o escorregamento, mesmo em locais com mata “virgem”. Uma vez desestabilizado esse equilíbrio, torna-se mais fácil o acontecimento de novos deslizamentos. Com isso, a grande causa de tudo, foi a chuva que, associada com diversos outros fatores (geológicos e até sociais), gerou toda a calamidade.

      Grande abraço Zé!!

  • angela moura
    Responder

    É bom saber ciencia. Conhecimento nos dá chance de não desesperar. Parabens a Aquafluxus,

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  • […] exemplo interessante da probabilidade de ocorrência de uma chuva pode ser retirado do post ” Summer is coming…“. Nesse post foi apresentado um estudo desenvolvido na UFRJ que demonstra que a chuva que […]

  • […] do Rio de Janeiro, como na região Serrana. Iniciamos o ano com um volume de chuva bem grande, característico do nosso verão, e diversos problemas ocorreram devido a toda essa água precipitada, principalmente no Estado de […]

  • […] como já escrevemos no primeiro Summer is Comming…, pode esperar que isso é só o começo. Claro que não estamos aqui para levantar grandes alarmes […]

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